quinta-feira, 12 de março de 2009

Ainda que não me olhes, ainda que não me tenhas mais aí, dentro de ti, estás aqui, dentro de mim.
Me acompanhas sempre, senão em pensamentos já que meus dias são todo novidade, participas dos meus sonhos. Sonhos repetidos com você de xadrez andando atrás de mim por estradas de terra sinuosas me fizeram passar longos minutos acordada. Outro dia tive a sensação de ouvir tua voz dizendo que voltaria, mas soou como um consolo apenas, uma gentileza, nem chegou a me iludir.

'Ainda tenho saudade dos teus olhos. Quando tenho um tempinho olho sua foto. Sempre me apavorou a possibilidade de esquecer teu rosto. Descubro agora que a saudade de alguém distante é mais amena, menos dolorosa. A sensação é de que eu que morri e vivi por esse amor diversas vezes, agora sobrevivo a ele, com as tristezas pelo que se passou, mas também com as alegrias em estar viva e em ver tudo com olhos diferentes, olhos de sobrevivente.

Tenho estado ansiosa e feliz. Matei saudades que andavam me deixando doente, acabei com incertezas que me afligiam. Continua existindo em mim um medo enorme, o medo de não saber onde vou pisar, de me afundar tentando fugir, mas a superfície parece tão próxima, tão possível de ultrapassar. Quizá seja assim!

Esclareço, enfim, que escrevo mais para mim que para ti. Não importa que não venhas mais aqui. Falei de você, falei para você. Faço-o por mim. Pronto!'


(Caio Fernando Abreu)

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